skip to Main Content

Encorajamos a todos os que tiverem uma história para partilhar acerca das suas experiências enquanto membros baptizados da comunidade religiosa das Testemunhas de Jeová que o façam aqui neste espaço. As experiências pessoais são poderosos testemunhos que ajudam outros a sentirem que não estão sós nas suas batalhas, sofrimentos e conflitos interiores que experimentam á medida que se procuram desligar desta religião.

Encorajamos em particular aqueles que sofreram abusos sexuais enquanto menores ás mãos de membros da congregação das Testemunhas de Jeová (parentes ou não) a tomarem coragem para contarem a sua história. Naturalmente, dada a natureza sensível do tema, o relato será previamente moderado pelo editor para assegurar que não serão publicamente revelados nomes e se protejam todos os que têm direito á sua presunção de inocência até que um tribunal os considere culpados.  Estejam certos, porém, que estes relatos, se  julgados credíveis, poderão ser partilhados com as autoridades competentes, que poderão decidir abrir investigações de natureza criminal. Naturalmente que o nome da vítima não será divulgado, a menos que a própria pessoa o solicite.

Queremos que estas histórias saltem para a opinião pública, tal como aconteceu nos EUA, Canadá, Holanda, Austrália, Finlândia, Irlanda, Bélgica e em cada vez mais países, a fim de que a liderança das Testemunhas de Jeová não continue a pretender enganar  os crentes e a opinião pública, fazendo crer que são diferentes das demais denominações religiosas que ao longo dos anos tão duramente criticaram por causa deste mesmíssimo problema. Pelo contrário, as suas políticas arcaicas e que se preocupam primeiramente na protecção da reputação da ‘organização’ têm proporcionado um porto de abrigo para pedófilos, e um calvário para as suas vítimas. Esta situação tem de ser abertamente denunciada e tem de mudar.

Envie a sua história para o email, indicando o país em que a sua história ocorreu, e, no caso de abusos sexuais e violência doméstica, os anos do início e do fim do abuso.

contacto.agirparamudar@gmail.com

EXPERIÊNCIA: Abuso sexual de menores

PAÍS: Portugal

RELATADO POR: [Anónimo a pedido da vítima]

PERÍODO DE TEMPO DO ABUSO: 1982-1986

DATA DE PUBLICAÇÃO: 01.05.2019

——————–

“Os meus pais tornaram-se  membros das Testemunhas de Jeová, um ou dois anos antes de eu nascer,e quando vim ao mundo, já me encontrava no seio da organização. A minha avó paterna, que também era membro das Testemunhas, foi quem cuidou de mim desde que nasci até por volta dos meus 10 anos. Eu estava com os meus pais somente aos fins de semana, e a minha avó cuidava-me no resto dos dias. Ela tinha também um vizinho que era um membro da congregação, e que facilitava-nos muitas vezes a nossas idas as reuniões dando-nos boleia. Eu conseguia estar um bocado com os meus pais a meio da semana, quando havia a reunião da Escola do Ministério Teocrático e outra de que já não me lembro e que era feita no mesmo dia.

Entre os meus 6 e 10 anos, quando a minha avó não podia ir a essas reuniões, esse tal vizinho levava-me ao Salão do Reino. Nada parecia suspeito ate que no primeiro dia em que ele me levou, ele achava que já era tarde para eu ir para a casa da minha avó, e acabei por ficar na casa dele e dormir na mesma cama dele. Foram nessas noites que eu fui violado sexualmente por ele. Ele fazia sempre por chegar tarde a casa para eu ser abusado por ele. Sentia-me comprometido por ele, uma vez que ele era muito mais velho que eu.

Finalmente, quando tinha por volta dos meus 22 anos, decidi-me dissociar-me dessa organização, porque o meu estilo de vida, não se coadunava com os princípios que as Testemunhas de Jeová exigem. Pedi uma reunião só com os anciãos da congregação, após o que acabei por ser chamado a uma comissão [judicativa] para saberem a minha decisão. Para além de lhes pedir a desvinculação, contei-lhes também o que se tinha passado enquanto criança. Os anciãos justificaram-se dizendo que a minha declaração não era viável, porque eu não apresentei nem provas, nem testemunhas. Ainda lhes perguntei: “para cometer um pecado destes, temos que chamar alguém para assistir, ou o pedófilo iria permitir isso?” Uma vez que não havia testemunhas para comprovarem as minhas acusações, não fizeram questão de abordar esse membro, nem se esforçaram para tal. E ele ainda continua a frequentar as testemunhas de Jeová até hoje.

Onde estava Jeová quando pedi ajuda desde o inicio para que isto acabasse? É uma provação? Permite Jeová que esta barbaridade aconteça ás crianças, deixando que os membros da sua congregação nos violem?”

História: O empreiteiro TJ aldrabão

País: Portugal (Grande Lisboa)

Ano: 2008-2009

Reportado por: [Anónimo a pedido do lesado]

 

Em 2008 eu e a minha esposa decidimos fazer obras profundas de remodelação de uma moradia de habitação onde vivíamos. Inicialmente pensámos apenas em mudar o telhado, usando uma técnica construtiva chamada de “Light Steel Frame”, e assim contactámos três empresas que anunciavam ser especializadas nessa técnica e pedimos orçamentos.

Seleccionamos aquela que ofereceu o melhor preço, uma empresa da margem sul do Tejo, e convidámos o dono para uma reunião em nossa casa para eles poderem ver a moradia. Apareceu o Sr. C.G. e sua esposa. Durante a reunião, a esposa por acaso deparou com alguma literatura da organização que tínhamos á vista, e perguntou se éramos Testemunhas de Jeová. Eles depois identificaram-se também como Testemunhas de Jeová. Pessoalmente não fiquei nada agradado, porque sempre desconfiei de negócios com “irmãos”, porque, se alguma coisa corre mal, é complicado recorrer aos meios legais.

Durante a reunião, o Sr. C.G. sugeriu que além do telhado, podíamos também fazer obras mais profundas, e assim acabámos por solicitar um orçamento para essas outras obras. Pedimos a um arquitecto para redesenhar o espaço interior. O orçamento veio, e foi aceite. Visto que essas obras excediam o dinheiro que tínhamos disponível, contraí um empréstimo bancário para cobrir o valor excedente. O orçamento incluía IVA á taxa reduzida de 5%. Segundo explicou o construtor, tratando-se da remodelação de uma casa com mais de X anos, essa era a taxa de IVA a cobrar. Acordámos num plano de entregas de pagamento em tranches conforme o progresso da obra, com 20% do valor á cabeça.

No início, tudo correu bem, as coisas avançaram a bom ritmo. Até que cerca de mês e meio depois, os “empregados” (nenhum tinha vínculo á empresa) não apareceram para trabalhar e as ferramentas mais caras tinham desaparecido. Soube depois que nada lhes tinha sido pago e eles desertaram e “pagaram-se” levando as ferramentas do Sr. C.G. como ‘pagamento’. Fiquei alarmado, até porque depois disso só vinha trabalhar o Sr. C.G., a esposa (!) e mais um pedreiro. Finalmente, até esse pedreiro deixou de aparecer, alegando que o Sr. C.G. lhe estava a dever bastante dinheiro. A obra então começou a atrasar todos os prazos acordados.

Percebi que o sujeito estava atolado em dívidas, e que estava a usar os pagamentos que eu lhe fazia, não para comprar os materiais para a minha obra, mas para “tapar buracos” noutras obras, e, naturalmente, fiquei alarmado e avisei-o de que tinha de parar de fazer isso ou teríamos problemas. Começou a só vir trabalhar esporadicamente na minha obra. Enquanto isto, eu e a minha família morávamos de favor num quarto na casa de um familiar.

Um belo dia o Sr. C.G. veio ter comigo e disse-me que se tinha “enganado” quanto á taxa de IVA, que afinal não podia ser de 5%, mas tinha de ser 21%. A diferença eram “só” 15.000,00 €. Percebi logo ali a jogada suja do Sr. C.G. e recusei terminantemente a tentativa de extorsão. Então ele disse-me que provavelmente não iria terminar a obra, porque ao facturar teria de o fazer a 21% e que se só recebesse os 5% então não teria dinheiro para pagar o IVA. Eu disse que esse era um problema dele, que os contratos são para cumprir, e que de qualquer modo já tinha pedido o empréstimo com base no orçamento inicial e agora não podia ir arranjar mais dinheiro. A discussão azedou. Ameacei-o de o pôr em tribunal e reportá-lo ás finanças. A partir daí as relações foram sempre tensas.

Ele começou a ser muito agressivo a pedir as tranches de pagamento, muitas vezes pedindo o dinheiro antes de ter completado a fase de obra correspondentemente acordada. Chegou a escrever-me uma carta ameaçando que ia fazer queixa de mim aos anciãos da minha congregação, por forma a me chantagear para lhe pagar coisas adiantadas ás quais não tinha direito.

No final de muitas peripécias, que incluíram fornecedores de materiais a baterem-me á porta a exigir pagamentos (que cabiam ao Sr. CG pagar, e cujo dinheiro eu já lhe havia adiantado), a obra lá chegou a muito custo ao seu término em Maio de 2009. Paguei os montantes acordados, inclusivamente de alguns trabalhos extra, perfazendo mais de 75.000,00 € . Imediatamente verifiquei que havia trabalhos por concluir e defeitos de construção, e reclamei dos mesmos junto do Sr. C.G., caso contrário não lhe faria o pagamento final.

Ele respondia negando que tivesse deixado defeitos e coisas por fazer, e enchia os e-mails com textos bíblicos para me fazer chantagem psicológica, e sempre reclamando o tal dinheiro do IVA, ameaçando inclusive fazer queixa de mim nas Finanças, por forma a que eu fosse obrigado a liquidar o IVA dela directamente ás Finanças. Naturalmente que não cedi.

No final ele foi acabar alguns pequenos trabalhos que deixou por concluir, não remediou nenhum dos defeitos de construção, e eu paguei a última tranche só para me ver livre daquele pesadelo. No total, umas obras que deviam ter durado cinco meses duraram 14 meses. E, surpresa! O senhor C.G. nunca passou qualquer factura dos mais de 75.000,00 € que recebeu em pagamentos, nem um cêntimo, nem com IVA a 5%, nem com IVA a 21%.

Dirigi-me aos anciãos da congregação e reportei o sucedido, exasperado com a situação, e com a perspectiva de ter de gastar milhares de euros a resolver os defeitos construtivos, e mencionei que tencionava reportar o senhor C.G. ás autoridades e mover-lhe uma acção em tribunal. Os anciãos leram-me 1 Coríntios 6:3-7 e disseram-me que não devia levar o meu “irmão” C.G. a tribunal pois isso traria mau nome a Jeová e á congregação. Que, se o fizesse, as minhas qualificações para o cargo na congregação ficariam em questão, e que o melhor era “deixar-me defraudar”, arcar com os custos, a bem do bom nome da congregação. Perguntei então como ficava a situação do Sr. CG não ter passado factura dos trabalhos e se furtar ao pagamento dos impostos (IRC e IVA) ao Estado? Resposta: “Isso é entre a consciência dele e Jeová.” E assim ficou, e quem se lixou … fui eu.